Enquanto se prepara para receber o título de cidadão ilheense, o senador Angelo Coronel vê crescer o desconforto político em torno de um dado difícil de ignorar: mesmo após sete anos de mandato e mais de R$ 242 milhões em emendas parlamentares executadas, Ilhéus não recebeu sequer um centavo dos recursos destinados pelo parlamentar.

A homenagem, que deveria representar reconhecimento pelos serviços prestados ao município, acabou abrindo espaço para questionamentos nos bastidores políticos e nas redes sociais. Afinal, qual foi a contribuição prática do senador para a cidade que agora pretende chamá-lo oficialmente de “filho da terra”?

Dados do Portal da Transparência mostram que Angelo Coronel concentrou grande parte das emendas em regiões consideradas estratégicas de sua base política. A Região Metropolitana de Salvador ficou com aproximadamente R$ 90,6 milhões — quase 40% de toda a verba executada pelo senador.

Enquanto isso, Ilhéus, conhecida nacionalmente como a Capital do Cacau, permaneceu completamente fora do mapa de investimentos do parlamentar.

Pequenas cidades receberam milhões; Ilhéus ficou no zero

O contraste chama ainda mais atenção quando comparado aos recursos destinados a municípios menores aliados politicamente ao senador. A pequena Conceição da Feira, com cerca de 20 mil habitantes, recebeu sozinha R$ 21,5 milhões em emendas. Já Coração de Maria foi contemplada com mais de R$ 15 milhões.

Já Ilhéus, com quase 180 mil habitantes, não aparece na prestação de contas com nenhum repasse direto vindo do senador.

O mesmo cenário se repete em Itabuna, outro importante polo do sul baiano que também teria sido ignorado na distribuição dos recursos.

Região cacaueira esquecida

O levantamento aponta ainda que a ausência de investimentos se estende por toda a região cacaueira. Dos 41 municípios da região, apenas 13 receberam algum tipo de recurso parlamentar oriundo do senador, totalizando cerca de R$ 11,3 milhões — praticamente metade do que foi destinado apenas para Conceição da Feira.

Municípios estratégicos como Itacaré e Canavieiras também ficaram de fora da lista de prioridades.

Homenagem gera desgaste

Nos bastidores, a concessão do título de cidadão ilheense já começa a ser vista por críticos como uma homenagem carregada mais de simbolismo político do que de resultados concretos para a população.

A pergunta que circula entre lideranças locais é direta: o que justificaria homenagear um parlamentar que, na prática, não incluiu Ilhéus em suas prioridades orçamentárias?

Até o momento, o senador não se pronunciou sobre os números apresentados no levantamento nem sobre as críticas envolvendo a ausência de investimentos na cidade.