Mesmo com o avanço da Covid-19, com a alta de casos e mortes que só passou a retrair o com o avanço da vacinação, sete setores da indústria baiana de transformação conseguiram alcançar níveis de produção semelhantes ou até superior ao período pré-pandemia.

A expectativa é que os resultados sejam ainda melhores nos próximos meses, apesar do temor de que novas variantes do vírus Sars-Cov2 circulem e obriguem, mais uma vez, as autoridades a adotar medidas de restrição que impactam diretamente no comércio e na economia.

Estes fatores convergem para uma projeção de crescimento de 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB), como aponta o relatório técnico da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) do mês de julho.

Na Bahia, onde a indústria pesada é concentrada no polo petroquímico e nas refinarias, a transformação de minerais não-metálicos, ligados diretamente à construção civil, tiveram um crescimento de destaque: 13,4% entre os meses de janeiro e maio de 2021, em relação ao mesmo período do ano passado, e um saldo positivo de 1020 empregos gerados.

De acordo com relatório, a busca por reformas em casas e escritórios devido ao fato das pessoas passarem cada vez mais tempo isolados, ajudou nos resultados positivos do setor de construção, que registrou alta de 6,9% na contratação de trabalhadores formais em comparação com fim de 2020. No entanto, é preciso se atentar à alta de juros e à redução no volume de obras de infraestrutura no estado.

Couros e calçados

O modelo de trabalho ‘home office’ e a restrição de circulação também trouxe um ponto peculiar à indústria baiana, o reflexo na fabricação de couros e calçados, por exemplo. Depois de um período de longa inatividade, a produção voltou a crescer a se destaca entre todas as áreas com 41,5% mais volume nos primeiros cinco meses de 2021 do que no mesmo recorte do ano passado.

“Depois de uma perda de 21,5% no ano passado, ou seja, mais de 1/5 da produção perdida, agora ela retomou e nos primeiros cinco meses já apresentou crescimento de 41,5%, em um nível acima da fase pré-pandemia”, explica Danilo Pires Almeida, especialista em Desenvolvimento Industrial da Fieb.

Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o saldo total de empregos gerados na área foi de 3600 pessoas.

Saída da Ford

Mesmo com a saída da montadora Ford, a presença das fábricas de pneus ainda impulsiona a produção de borracha, que junto ao plástico, teve um crescimento de 31,6% em comparação ao ano passado. Danilo Almeida lembra que este setor é marcado pela variedade de produtos que podem se transformados, desde brinquedos às sacolas de lixo.

“Outros setores que destaco são da borracha e plástico, que aí inclui vasilhas, sacos de lixo, tudo que é de transformação plástica, balde, brinquedo, mas aqui entra também a parte de pneus. Aqui na Bahia, mesmo após a saída da Ford, você ainda tem a Continental, a Bridgestone, a Pirelli, que aproveitam a matéria-prima do polo”, disse o especialista em entrevista ao grupo A TARDE. Ele acrescenta que mesmo com a saída da montadora, a Bridgestone anunciou investimento de R$ 700 milhões na expansão da planta industrial de Camçari.

“Esses dois segmentos, juntos, mostram uma recuperação muito boa. No ano passado, caiu 10,5%. Agora, nos primeiros cinco meses, que já dão uma ideia de como vai ser o ano, está crescendo 31,6%”, acrescenta. Os setores de bebida e produtos químicos também variaram positivamente em 11% e 21,2%, respectivamente.

Energia e gás

Outra área que também mostra sinais de recuperação é o de Serviços Industriais de Utilidade Pública, que engloba produtos essenciais como energia elétrica e gás natural, e que teve um crescimento na produção de 10,6% nos últimos doze meses. Todos os índices, ressalta Danilo, devem ser analisados sob a perspectiva de que partem de uma “base de comparação deprimida”.

Em outras palavras, o resultado negativo anterior faz com que os índices sejam altos, pois se comparam a níveis baixíssimos decorrentes do impacto da pandemia de Covid-19. Contudo, ele se mostra confiante com o futuro no estado e garante que é possível cravar que “a economia está voltando”.

A venda da Refinaria Landulpho Alves, em São Francisco do Conde, também já mostra os seus efeitos. O refino de petróleo e biocombustíveis teve uma queda de 16,9% se comparado com o ano passado e a perspectiva é de que este índice caia ainda mais.

Serviço e comércio

A única área que ainda não conseguiu retomar o crescimento foi a de serviços, principalmente aqueles ligados ao turismo e entretenimento, como hotéis, eventos, bares e restaurantes.

Depois de uma queda de 14,7% nos primeiros cinco meses de 2020, o setor conseguiu recuperar somente 2%. A perspetiva futura, contudo, é melhor, com a aceleração da vacinação e o aumento da interação social, que acelera a demanda por atendimento e outros tipos de serviço.

Vice-presidente da Associação Comercial da Bahia (ACB), Paulo Cavalcanti acha que ainda não é o momento de comemorar “notícias boas” na economia. O setor do comércio, que engloba micro e pequenos empreendedores, assim também como os profissionais do mercado informal, ainda não conseguiu voltar ao patamar anterior à pandemia.

“Não só no nosso estado, mas existe um sofrimento muito grande do pequeno empresário, que faz parte do Simples Nacional, e os informais como os autônomos uq prestam serviços, tem sofrido demais. Para entender, de acordo com dados do IBGE deste último trimestre, 54% da atividade do estado da Bahia é informal, e foi a parte que mais sofreu na pandemia”, afirmou Paulo em entrevista ao grupo A TARDE.

“Para cada 10 postos de trabalho, 8 perderam suas atividades e só estão recuperando agora que está reabrindo a academia, já pode ir para a rua vender água de coco, um acarajé. Até os lojistas dos shoppings centers, outros comerciantes que sofrem com a falta de financiamento”, completou.

Perda do poder de compra

Para Paulo Cavalcanti, apesar do esforço do Senai, por exemplo, é preciso uma atenção maior ao setor que terá dificuldades de se reerguer com a perda do poder de compra dos brasileiros, afetados pelo agravamento da crise econômica e a alta taxa de desemprego. Apesar da situação de “alerta”, o vice-presidente da associação confia que mais uma vez o Brasil vai conseguir superar este momento.

“Estamos em uma situação de alerta, não vai ser fácil não, precisa de contribuição, mas vamos conseguir com certeza. O brasileiro tem capacidade fantástica de se reinventar, vamos sim conseguir sair dessa crise”, prevê.